· Lucas Resende · Carreira & Tecnologia · 7 min de leitura
Mentoria IBM "Ctrl+Alt Dream": Lições de Carreira na Prática
Em uma sessão de mentoria com executivas da Deloitte e Bradesco, lições práticas sobre processos seletivos, falar inglês e transição de carreira.

Entrei na sala do Microsoft Teams às dez em ponto com o Obsidian aberto na tela, esperando aquela rotina cansativa de evento corporativo online: alguém da organização compartilhando slides institucionais sobre tendências de mercado enquanto dezenas de estudantes assistem em silêncio.
A dinâmica da mentoria <Ctrl+Alt> <Dream>, promovida pela IBM SkillsBuild em parceria com o Centro Paula Souza, foi o oposto disso. A organização dividiu os alunos em salas menores para uma hora de conversa direta com profissionais voluntários. Éramos sete pessoas no total da chamada: quatro estudantes (eu, a Júlia e a Élida, colegas de Segurança da Informação na Fatec Americana, além da Ana Clara, do ensino médio da Etec) e três profissionais com vivências sólidas no setor financeiro, tributário e de consultoria:
- Mariana Ribeiro, sócia de M&A Transaction Services na Deloitte, com quase duas décadas de consultoria e mais de 300 transações de fusões e aquisições no currículo.
- Vanessa Celuppi, que hoje cuida de governança e planejamento comercial no Bradesco, depois de ter começado aos 19 anos como estoquista de shopping e supervisora no telebanco.
- Luiza Monticeli, analista de Business TAX e Transfer Pricing na Deloitte, que se formou em Direito e migrou para a consultoria tributária aos 25 anos.
A conversa durou 60 minutos sem nenhum slide. Falaram com abertura e sem rodeios sobre contratações, insegurança e tropeços reais de carreira. Alguns direcionamentos práticos da conversa se destacaram assim que a sessão terminou.
O currículo cheio de certificados e a dúvida da Júlia
Logo no começo, a Júlia abriu o microfone e colocou na mesa uma dúvida que consome quem está nos primeiros semestres: vale a pena passar semanas acumulando diplomas rápidos para tentar impressionar recrutadores, ou isso é perda de tempo?
A resposta da Vanessa foi direta ao ponto:
“A empresa sempre vai olhar os seus hard skills para elegibilidade da vaga. O que faz você ganhar a vaga e se destacar são os soft skills: demonstrar vontade, relacionamento e brilho nos olhos.”
- Vanessa Celuppi, Analista de Planejamento Comercial no Bradesco
Gastar 40 horas fazendo dezenas de cursos rápidos de 2 horas costuma gerar mais volume do que substância. As certificações funcionam apenas como um filtro mecânico inicial para colocar o currículo na pilha. O que decide a contratação é como você sustenta uma conversa técnica e reage a problemas reais.
A Luiza viveu isso na pele ao entrar no programa de novos talentos da Deloitte. Recém-formada em Direito, ela não sabia montar um Procv no Excel e nunca tinha calculado tributos complexos na vida. Ela não tentou fingir conhecimento que não tinha. Assumiu suas limitações com clareza, mostrou lógica para aprender rápido e firmeza para lidar com clientes sob pressão.
Para se preparar para a entrevista, ela usou uma abordagem pragmática: em vez de pedir resumos prontos ao ChatGPT, ela instruía a IA a agir como uma entrevistadora técnica exigente. Pedia para o modelo fazer perguntas difíceis sobre legislação e apontar qualquer inconsistência no raciocínio dela. Treinar a fala sob pressão ajudou muito mais do que empilhar diplomas de cursos rápidos.
A porta de entrada e as passagens de ônibus em BH
A trajetória que a Vanessa compartilhou quebrou qualquer tom corporativo distante. Ela começou aos 19 anos descarregando caixas como estoquista em loja de shopping, trabalhou nas Lojas Renner e depois entrou no atendimento telefônico de telebanco.
Naquela rotina pesada de telemarketing, ela não tinha como prever os próximos dez anos. Mas colocou energia no atendimento, foi promovida a supervisora de 30 pessoas em apenas um ano e encontrou uma vocação comercial nítida. Passou oito anos gerenciando contas corporativas e hoje responde pela governança de negócios no Bradesco.
“Às vezes a porta de entrada não é exatamente aquilo que a gente espera. Onde você entra não precisa ser seu destino final. Os cargos e os momentos mudam, mas aquilo que é a sua essência continua com você para sempre.”
- Vanessa Celuppi, Analista de Planejamento Comercial no Bradesco
A trajetória da Mariana Ribeiro reforçou essa mesma sensação de realidade. Vinda de São Gonçalo do Sapucaí, no sul de Minas Gerais, ela foi a primeira pessoa da família a pisar em uma faculdade. No primeiro estágio que arrumou na prefeitura de Belo Horizonte, o custo do transporte público superava o valor da bolsa. Ela literalmente pagava para trabalhar. Anos depois, entrou como trainee na Deloitte, passou três anos em Boston liderando projetos globais e virou sócia da consultoria em 2020.
“A vida e a carreira não são linhas retas, são feitas de vales, altos e baixos. Ter resiliência e persistência para passar pelos desafios é o que faz a gente ser perene.”
- Mariana Ribeiro, Sócia de M&A Transaction Services na Deloitte
Ouvir esses relatos desmontou parte da neurose com o primeiro emprego ideal. Na faculdade de tecnologia, a gente costuma criar a ilusão de que a estreia precisa ser como júnior brilhante em uma grande empresa de software. Na prática, começar em suporte técnico, atendimento ou rotinas operacionais não atrasa a vida. É no trabalho puxado do dia a dia que a gente aprende a lidar com prazos, clientes nervosos e sistemas fora do ar.
O medo de falar inglês e a vaidade da pronúncia
A Élida, que trabalhou como advogada por 25 anos e entrou na Fatec aos 47 para estudar Segurança da Informação, compartilhou um bloqueio comum: ler documentações em inglês e responder e-mails é tranquilo, mas a voz trava na hora de falar por receio de errar a gramática.
A Mariana tirou o peso do assunto contando o que sentiu na pele quando foi transferida para os Estados Unidos. Ela passou meses travada nas reuniões porque queria falar com a fluência e a pronúncia de uma americana nativa. Até perceber que os diretores em Nova York e Boston só queriam saber se o cronograma da auditoria estava correto e se os números batiam. Ninguém prestava atenção no sotaque dela.
Esperar atingir uma pronúncia irretocável antes de arriscar uma frase em público é uma forma sutil de autossabotagem. Em reuniões de trabalho, clareza e objetividade importam muito mais do que perfeição gramatical.
A paralisia por análise e a pergunta que levei para a reta final
Depois de ouvir com atenção as trajetórias da Vanessa, da Mariana e da Luiza, e acompanhar os pontos levantados pela Júlia e pela Élida, aproveitei a reta final da sessão para colocar na mesa um desafio estratégico que tenho sentido de perto.
Ao migrar do design e marketing para a computação, a quantidade enorme de caminhos possíveis gera uma sobrecarga real. Quando você tem interesse por desenvolvimento, cibersegurança e mercados globais, é fácil cair na armadilha de tentar prever cada passo, refinando planos e sistemas de estudo no detalhe em vez de testar hipóteses no mundo real. Perguntei como elas equilibravam essa busca por direcionamento sem travar no excesso de opções.
A Élida levantou a mão para responder de imediato:
“Lucas, eu estou no último semestre e você está no primeiro. A sua cabeça vai mudar muitas vezes ainda. Você não vai descobrir do que gosta apenas olhando para a grade curricular ou montando planos isolados. Procura um estágio logo, entra no dia a dia técnico. Quando você estiver trabalhando, os desafios da empresa e o contato com a equipe mostram com naturalidade o que você precisa aprofundar. O foco nasce da prática, não do excesso de planejamento.”
A fala dela resumiu perfeitamente a dinâmica da sala: mais do que respostas teóricas prontas, a troca trouxe a perspectiva de quem já enfrentou a transição no campo prático. Logo em seguida, a organização encerrou as salas simultâneas e reuniu todos os participantes no saguão principal do Teams.
O que muda na minha rotina a partir de amanhã
Desliguei o Teams com a cabeça muito mais no lugar e com uma clareza renovada sobre prioridades. Percebi que o excesso de planejamento muitas vezes vira uma forma confortável de adiar o contato com o mercado real.
Criar cronogramas bonitos no Notion ou no Obsidian dá uma sensação boa de controle. Só que ninguém contrata quem tem o melhor sistema de anotações. O mercado valoriza quem resolve problemas concretos, tem honestidade para assumir o que ainda não sabe e mostra energia para aprender rápido onde houver demanda.
A partir de amanhã, guardo os planos teóricos na gaveta. Vou ajustar meu currículo, reconhecer que o meu conhecimento técnico está em constante construção e intensificar as candidaturas para estágios e projetos reais. O ponto de partida quase nunca é como a gente desenha no papel, e os exemplos daquela sala demonstraram que a consistência na prática é o que constrói uma carreira sólida.
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